Pioneira, dona Lourdes relembra trajetória em Tapurah

Atualizado: 3 de jul.



Vários pioneiros podem contar com riqueza de detalhes a história de Tapurah, desde os dias mais remotos, quando era difícil chegar ao município que hoje conta com mais de 17 mil moradores. Uma delas é Idália Francisca dos Santos, mais conhecida como Dona Lourdes. E a trajetória dela demonstra bravura e resistência, qualidades necessárias para permanecer no município que completa em 4 de julho seus 34 anos de fundação.


Dona Lourdes nasceu no sul do país, na pequena Marau, que era Distrito de Passo Fundo. Quando foi registrar a filha, o pai de dona Lourdes começou a conversar com o dono do Cartório de Registro Civil e entregou um bilhete com os dados paternos e o nome da menina que seria batizada como Lourdes para a funcionária do cartório. Contudo, a criança foi registrada Idália Francisca, nome que só descobriu ao frequentar a escola. E houve erro, inclusive, na data de nascimento, mas a Idália, ou melhor Lourdes, conseguiu assimilar e conviver com essa situação. “E como ‘apagar’ esse nome, nome muito forte, fácil de falar. Até as pedras me conhecem”, pontuou.



O tempo passou e a jovem Lourdes casou com Eurides. Ela abriu mão da confortável vida no sul do país e, ao lado do marido, veio desbravar Mato Grosso no início dos anos 80. Eles adquiriram uma fazenda em Tapurah, mas não conseguiram trabalhar a terra. Resultado: tiveram que buscar outros meios de subsistência. O comércio foi a opção e a família abriu um supermercado. “Foi muito difícil. Eu sofri muito e chorava escondida do meu velho pra não desanimar ele”, relata.



Do primeiro supermercado, dona Lourdes começou a ampliar a área de atuação, abrindo mercados em Nova Mutum, Ipiranga, comunidade Ranchão, Novo Eldorado, Ana Terra e Siminone. Ela costumava, com frequência absurda, fazer compras em São Paulo para abastecer os mercados da rede, rotina que comprometeu a saúde. “A minha máquina falhou, estava com quase 140 quilos, diabética, pressão alta, o meu coração ficou grande e atrofiado. Eu não falava três palavras sem tossir, porque faltava oxigênio no pulmão”, disse, após ouvir o diagnóstico clinico que não garantia seis meses de vida sem uma mudança brusca na rotina. “E eu vendi todos os mercados e fui investindo em terras. E fiz bem, porque hoje as terras valem muito”, acrescentou.

Apesar de todo o patrimônio em terras, a família ainda enfrentava dificuldades. E a saída foi montar um restaurante na saída para Lucas do Rio Verde. Foi quando a família começou a experimentar um pouco de prosperidade. “Porque eu sei fazer comida, eu sei fazer as coisas, e vendi um trator pra montar o restaurante. E em seis meses eu vendi o restaurante por três vezes o valor que eu gastei”, lembra. Na época, ela comprava uma vaca a cada dois dias para abastecer o restaurante. “Não faltou mais dinheiro pra nós”.


Enquanto as coisas melhoravam para a família, começaram a aparecer necessidades da comunidade. Eurides assumiu a presidência da comunidade. Como representante, reivindicou uma ambulância para atender o pequeno povoado e o pedido foi atendido. E o veículo ficou sob a guarda do presidente. “Acontecia algum problema ou criança doente, vinham nos procurar para levar para a cidade. Essa ambulância teve tanto emocional pra gente, pois chegavam crianças subnutridas e eu lembro que um dia chegou uma que mal conseguia gemer. Eu falei para o meu velho que ela não ia suportar. E chegava o pedido, mas não tinham o dinheiro pra gasolina e pra pagar o motorista. Mas como que eu, ser humano, não ia botar meu dinheiro pra fazer isso, atender a criança”, disse dona Lourdes, que nem sempre recebeu de volta o dinheiro arrumado para custear o deslocamento.


Dona Lourdes também ficou bastante conhecida pelo trabalho à frente do Lar do Idoso São Francisco. Ele é mantido pela ONG Amigos do Meio Ambiente e do Ser Humano, criada há 13 anos. A ideia inicial era cuidar de idosos residentes em Tapurah durante o dia. A ONG adquiriu uma Kombi que ia buscar pela manhã e entregar ao final do dia. “Lá tinha canastra, joguinho de dominó, comida de graça. As famílias gostavam porque o pai e a mãe estavam lá, ou só o pai, ou só a mãe, um vizinho”, explicou. Contudo, passou a haver procura por atendimento a pessoas com deficiência. Diante da necessidade, a ONG passou a atender, com bastante dificuldade, e a estrutura começou a ser preparada para este tipo de atendimento. Dona Lourdes esteve à frente da ONG por oito anos, sendo sucedida pelo esposo Eurides, que há 5 anos acabou falecendo, durante sua segunda gestão. Como era vice, dona Lourdes assumiu a presidência da ONG. Além dos cuidados com a higiene dos internos, a direção cuida ainda da alimentação e da medicação, que controladas com rigor para evitar contratempos. Atualmente, 44 idosos são atendidos, sendo 8 mulheres e 36 homens. A equipe de trabalho é composta por médico, psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista, técnica de enfermagem, cozinheira, cuidadoras, motorista e gerente geral. “São 13 anos que fazemos este trabalho”.


O casal Eurides e Lourdes teve três filhos, oito netos e um bisneto. Dois filhos estudaram e se formaram. Um é advogado e o outro está se formando médico este ano. O terceiro preferiu se dedicar aos negócios da família, dando suporte à mãe.


Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo caminho, dona Lourdes mostra-se grata. E procura passar uma mensagem de otimismo às pessoas. “Nunca se deve desistir, porque eu tenho essa idade e estou fazendo planos, do que eu posso fazer.

Eu gosto de construir, de fazer desafios”, relata a pioneira, adiantando que pretende continuar fazendo negócios imobiliários. “Me realiza fazer isso e é importante fazer o que se gosta”.




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