Família Kothrade: onde o sonho virou cidade e o trabalho virou legado
- Editor

- 3 de ago.
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Dona Ana Chupel Kothrade abre o álbum de memórias da família e revela como
coragem, trabalho e união ajudaram a construir Lucas do Rio Verde.

Um antigo ditado popular diz que “atrás ou ao lado de um homem de sucesso existe uma grande mulher”. A história do casal Werner Haroldo Kothrade e Ana Chupel Kothrade confirma esse provérbio.
Ele, produtor rural do interior de Santa Catarina, e ela, dona de casa, pais de cinco filhos - Simone, Neli, Haroldo, Gerson e Leidi - decidiram, ainda na década de 1970, incentivados pelo pai de Werner, aventurar-se em busca de novas oportunidades no então distante e desconhecido Mato Grosso.

Naquele período, chegar à região era um verdadeiro desafio. As estradas eram precárias, muitas vezes intransitáveis durante o período de chuvas. Não havia energia elétrica, infraestrutura urbana ou serviços básicos. O isolamento era grande, e cada conquista exigia muito esforço coletivo.
“Olha, foi um choque cultural, pois lá em Santa Catarina nós já tínhamos uma boa estrutura, uma casa grande, eletricidade, água encanada e escola para as crianças. Quando chegamos aqui, não tinha absolutamente nada. Eram pequenas casas de madeira ou de lona e pouquíssima estrutura. Tivemos que construir tudo do zero. Mas uma coisa que, desde essa época, já tínhamos era a parceria dos moradores. Era um ajudando o outro. Lembro que as mulheres iam até o Córrego Lucas lavar roupa ou buscar água. Sempre havia o cuidado um com o outro”, conta dona Ana.
Ao receber a equipe da Revista Portal, a pioneira relembra que, apesar das adversidades, prevalecia entre os colonizadores um sentimento comum: eles acreditavam no potencial daquela terra, e trabalhar diariamente para transformá-la em um lugar próspero para as futuras gerações era a missão da maioria.

O primeiro prefeito de Lucas do Rio Verde
Com a emancipação política do município, a comunidade identificou em Werner Kothrade uma grande opção para prefeito. Ele era considerado um bom cidadão e, politicamente, uma pessoa neutra. Com as bênçãos da companheira, foi eleito o primeiro prefeito de Lucas do Rio Verde e administrou a cidade entre 1989 e 1992.
“Antes de aceitar, Werner falou que precisava conversar comigo primeiro. Eu não hesitei em nenhum momento. Confirmei e abracei a causa com ele”, relembra a ex-primeira-dama da cidade.
Assumir a primeira gestão municipal significava enfrentar enormes responsabilidades. O município ainda possuía poucos recursos financeiros e praticamente toda a estrutura pública precisava ser criada.
“Me lembro de o Werner falar que a prefeitura não tinha nem sequer uma caneta para assinar a documentação. Mas os moradores foram extremamente parceiros. Um doou uma mesa e cadeiras, outro uma máquina de escrever, e assim foi até que a prefeitura tivesse o mínimo de estrutura para trabalhar”.

A primeira-dama e o cuidado com as pessoas
Ao relembrar seu papel como primeira-dama de Lucas do Rio Verde, dona Ana fala da importância de acolher as famílias que chegavam nos primeiros anos do município.
“Desde o início, mobilizei as mulheres para que uma ajudasse a outra, seja com doações de roupas, móveis ou até mesmo na realização de pequenos cursos de costura, pintura e até ensinando a cozinhar, isso fazia muita diferença naquela época”, afirma.
Ao recordar a união entre as mulheres, a ex-primeira-dama conta que foram muitos momentos de parceria. Elas se uniram para decorar os caminhões que transportariam as crianças no desfile de 7 de Setembro.
Também promovia encontros, bailes e até peças teatrais com os idosos, debaixo de uma árvore. Foi ali nascia o Clube dos Idosos.
No Natal, reunia amigos e voluntários para arrecadar brinquedos e distribuí-los às crianças da cidade.
Ela e várias outras mulheres produziram todo o enxoval — tapetes, lençóis, toalhas e travesseiros — da primeira creche do município, a Creche Menino Jesus, que na primeira gestão ganhou um novo prédio graças a intermediação de dona Ana.
“A creche que existia era muito precária. Eu reivindiquei ao Werner a construção de uma nova unidade. Na época, muitas mães vinham na porta de casa pedir ajuda, porque elas queriam trabalhar e não tinham onde deixar os filhos. Em pouco tempo conseguimos entregar a nova creche, e foi uma conquista muito importante naquele momento”.

Primeira Expolucas
A primeira Expolucas foi realizada em 1989, no primeiro de gestão político-administrativa do município, e foi construída em menos de 40 dias. O evento acompanhou desde o início o aniversário da cidade, que nesse ano completa 38 anos. E naquela época além de todo o trabalho realizado pela Prefeitura e pelos empresários, dona Ana, lembra que as mulheres se uniram para receber os visitantes, organizar a alimentação, decorar os estandes e pensar nos detalhes que, para muitos, passavam despercebidos.
“A Expolucas foi uma loucura. Vivíamos um momento delicado na agricultura, então o Werner, o pessoal da prefeitura e os produtores resolveram realizar o evento, mesmo sem saber direito como seria, tanto que os estandes e o placo foram improvisados tudo de madeira e cobertos com lonas. Recebemos peões, visitantes e algumas autoridades da região. Foi tudo muito repentino, mas foi a partir dali que muitas decisões foram tomadas e ajudaram a construir a história do município” afirma dona Ana.
Partida, fé e muito amor
Enquanto Lucas do Rio Verde se desenvolvia, a família Kothrade também construía sua própria história. Com os cinco filhos, a família cresceu. Chegaram os genros e as noras, vieram os netos e os bisnetos, e o pioneirismo da família se manteve vivo e preservado.
Mas, em 2022, aos 75 anos, Werner Haroldo Kothrade partiu após complicações cardíacas, deixando para a família e para a história de Lucas do Rio Verde um legado de trabalho, dedicação e amor por uma região na qual sempre acreditou e da qual tinha “certeza de progresso”.
“Werner foi um ótimo marido, um excelente pai e um gestor de muita fé. Foram mais de 60 anos juntos, e eu o vi investir anos de vida e de trabalho por nossa família e por Lucas do Rio Verde. É uma pena ele não estar presente para ver o quanto nossa cidade se transforma diariamente. Sinto muitas saudades da parceria e da inteligência dele, mas sei que tudo o que vivemos vai ficar para sempre na nossa história”, se emociona dona Ana.

Amor e gratidão por Lucas do Rio Verde
Ao olhar de perto a história da família Kothrade, é nítida que ela foi marcada, desde o início, pelo pioneirismo, pela perseverança e pelo amor à terra que escolheram para viver.
Hoje, ao contemplar a cidade moderna e reconhecida nacionalmente, dona Ana Chupel Kothrade agradece a Deus pelos desafios vencidos e pela união de um povo que nunca teve medo do progresso.
“Nossa fé em Deus e também um no outro, garantiu esse desenvolvimento. Temos que agradecer a Deus por nos dar coragem para chegar, coragem para ficar e coragem para construir todo esse legado. Para mim, é uma grande honra ter feito parte do progresso de Lucas do Rio Verde, pois nós demos o ponta pé inicial, e hoje temos um grande exemplo a ser seguido” finaliza a pioneira.
Texto: Maryuska Pavão




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